De Pais para Filhas: os desafios da sucessão na empresa familiar

Ainda que algumas famílias considerem que o sucessor natural é o filho homem, a pesquisa Retrato das Empresas Familiares da Serra Gaúcha, realizada pelo IDEF em 2017, mostrou que 62% das empresas entrevistadas possuem mulheres na gestão do negócio e muitas destas mulheres são filhas que já comandam a empresa de seus pais.

Estes fundadores relatam que a decisão pela sucessora foi baseada nas atitudes, nos valores e na personalidade, além da confiança e da competência destas filhas para assumirem o negócio. Diferentemente do que podemos pensar, a questão do gênero nessas empresas familiares fica em segundo plano.

Em algumas empresas, no entanto, os pais possuem um “ponto cego” e não percebem a filha como possível sucessora; a filha “invisível”, como dizem alguns estudiosos, não é envolvida no processo de sucessão. Isso acaba se tornando um grande problema quando chega o momento da sucessão. Não é raro o fundador recorrer a genros ou executivos contratados, solução que nem sempre se mostra eficaz.

Porém há casos em que o pai fundador tem sentimentos contraditórios: ao mesmo tempo em que desejaria sua filha no comando, nutre por ela um sentimento de proteção e cuidado. Sabedor da dedicação e da exigência do cargo muitos pais preferem poupá-las da função e, por isso, a excluem do processo sucessório.

Para a filha, o desafio de suceder o pai também não é simples. Algumas assumem os negócios da família pelo companheirismo e cuidado que tem para com seus pais, contribuindo com a família por sua responsabilidade com o legado, mas, com o passar do tempo, o projeto de seus pais passa a ser um grande fardo que, em algum momento, pode se tornar difícil de conviver.

Para aquela filha considerada “invisível”, o desafio é lutar por seu espaço mesmo que seus pais não a vejam no comando dos negócios. Nesses casos, o diálogo familiar e os acordos, algumas vezes incluindo os irmãos, são essenciais para que a filha ocupe a função e o papel que realmente deseja, sem exclusões incoerentes.

A filha que faz parte de uma empresa familiar precisa refletir sobre suas expectativas profissionais não se deixando dominar pelos desejos, paradigmas e visões de seus pais. Tomar consciência de seu propósito pessoal e persegui-lo é essencial para desempenhar seu papel de forma legítima e responsável.

 

HANA WITT
Professora e pesquisadora, fundadora do Instituto de Desenvolvimento da Empresa Familiar – IDEF, é especialista em Governança Familiar e Compliance e Conselheira de Administração pelo IBGC. Possui formação no Programa Iberoamericano para Consultores de Empresas Familiares Universitat Abat Oliba de Barcelona e Governança Corporativa na Fundação Dom Cabral. Graduada em Engenharia Química, tem  Mestrado em Engenharia de Produção (UFRGS) e Especialização em Gestão de Projetos (FGV).

Sócio consultor da efconsulting e docente do ensino superior.
Especialista na elaboração de Protocolos Familiares, Planos de Sucessão, Órgãos de Governo, tendo acompanhado numerosas Empresas e Famílias Empresárias.
Autor de livros e centenas de artigos relacionados com Empresas Familiares.

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